O tempo que passa a correr não me permitiu fazê-lo antes. Deixo-te agora esta carta um ano depois.
Querido R.,
(E agora não sei bem como começar...) Passou-se um ano (na verdade já mais do que um ano) desde aquele ténue momento em que te conheci. Em que posso dizer que te conheci. Não falo das fotografias nem do jogo que terminou com um mergulho na praia. Falo de quando entrámos no autocarro e me sentei junto a ti. De quando as seis da manhã eram demasiado cedo para estar acordada, e os meus olhos fecharam encostados ao teu ombro. Nem foi tanto a viagem para Lisboa, foi a viagem de regresso. E depois disso, tudo mudou. Os encontros secretos no fim do dia, para que ninguém nos confrontasse com a verdade. Que estávamos perdidamente apaixonados um por o outro (que ainda estamos!). Os teus amigos que aos poucos foram entrando na minha vida. O fim do ano lectivo assustava-me ferozmente. Não te conhecia. Mal te conhecia e não sabia o que esperar. Começámos a descobrir Gambelas de uma forma diferente. Víamos o mar à noite e descobriste estrelas no céu. Descobriste, incrivelmente, que aquele astro brilhante que passa por quatro fases num mês é a Lua, e não uma estrela. (Leiam os desentendidos que ele no fundo sabia de que astro se tratava, mas quando queria escolher uma estrela, escolhia sempre a Lua... Por ser maior.) Desde sempre que esses grandes caracóis me deixam derretida e que esse ar de miúdo pequeno faz com que eu nunca me zangue contigo. As despedidas acabavam sempre na Rua dos Amores Perfeitos, a meio caminho entre a minha e a tua casa. Uma rua escondida, como o amor que tentávamos esconder. A notícia espalhou-se neste pequeno grande bairro de gente universitária e nem mesmo o primeiro beijo se escapou a olhares indiscretos (escapou-se o beijo, não se escaparam os olhares). A chegada do verão que todos anseiam trazia para mim a mais cruel das despedidas, de um amor (ainda) tão curto. Trabalhava dia e noite para o tempo passar mais rápido, para a tua distância não se notar. Mas era tão difícil. Setembro chegou com as festas da aldeia. Daquelas aldeias bem escondidas no interior do nosso país, repletas de tradições. Onde todos conhecem todos. E onde quem chega tem de conhecer todos. Foi isso que me fizeste. Recordas-te, certamente, do despertar caloroso (?) da Fernanda quando lhe contaram que no sótão estava um grupo de amigos do 'Puto' e que ele (o Puto) estava acompanhado. Eu, pelo menos, lembro-me como se fosse hoje. Um furacão entrou pela divisão a dentro e destapou-me com tanta força que o meu coração acelerou. Fingi dormir para não ter de responder a nada. Nem quem era. Nem porque é que estava naquela cama contigo. Claro que o descer as escadas me fez lembrar o caminho da vergonha (como se eu fosse um daqueles cães do Up que usam o 'cone da vergonha'). 'A amiga do Rúben' não fez muito sucesso. Toda a gente sabia, ainda que se insistisse na 'amiga'. As aulas, as tão desejadas aulas, trouxeram com elas horários indiscutivelmente incompreensivos, mas também uma grande cumplicidade. Escrever e fazer uma tese não é certamente coisa fácil (e eu hei-de o perceber para o ano), e eu passei a ver-te no início e no fim do dia. Ao teu lado tomei uma decisão que sozinha não seria capaz, por esta mania de economizar cada cêntimo que ganho. Peguei em pouco mais de 100 euros e deixei que me levasses a Inglaterra (nunca gostei muito do nome em português, vá-se lá saber porquê). Dizem que nunca se conhece verdadeiramente os amigos até passarmos férias com eles. Se isso for igual para os namorados então eu fiquei deliciada. Não te importaste que os nossos jantar-fora fossem sentados num banco do metro perdidos entre a linha castanha e uma qualquer outra cor. E não te importaste das intermináveis horas, a meu lado, no Museu de História Natural. Ou de quando aquele americano não nos deixava dormir. Porque isto de não ter muito dinheiro e ter de dividir quarto com desconhecidos não é decididamente fácil. Mas enfrentavas tudo com um sorriso nos lábios. Mesmo quando a comida era demasiado picante. Ou de quando nos desmanchámos em lágrimas à beira do Tamisa a som de um desconhecido (?) violinista. Da veloz viagem de regresso a Stansted e de dormirmos no chão do Airport, porque todos os bancos tinham sido ocupados. Mais que isto, deixaste-me entrar na família. Deixaram. Começaram as viagens no Natal. No aniversário da Raquel (e tão difícil que parecia ela gostar de mim um dia!). No aniversário da Mãe Ângela (sim porque hoje escrevo todos os nomes sem pontos finais). A tua entusiástica ajuda no campo é o que me faz continuar sem medo. Desde aquela manhã em Vilamoura que tudo desabou, que passei a ver as coisas de forma diferente. O mar estava mau. O tempo estava mau. Agora eu sei como lidar com essas coisas, se bem que continuo a precisar de ti em campo, comigo (mais que não seja para ameaçares as garças - coitadas, que lá esvoaçam à procura de comida). Vou agradecer-te sem dúvida alguma, quando um dia escrever o artigo de cinco ou seis páginas que vai resumir a minha tese. Ficam na memória os gelados perfeitos. O bacalhau com natas. As pizzas queimadas. Os serões lá em baixo no 2º esquerdo. Os passeios ao Parchal, a Albufeira, a Portimão (?). Ficam as 3 vezes que me perguntaste se um dia me casaria contigo (uma delas em Westminster, onde se casam os príncipes e as princesas). Ficam os dias na praia e os escaldões que apanhas de cada vez que lá vais. Ficam as noites mal-dormidas. Os serões a estudar. As idas ao laboratório. As ajudas. Os sorrisos. Os filmes. As idas ao supermercado, que podem parecer tão banais mas que, contigo, sabem sempre melhor. Fica o amor que trago comigo sempre, no coração. Ficam as cartas e os bilhetes de amor. E ficam as saudades do tempo que já lá vai. E visto assim, parece que já passou mais do que um ano. Ficam os escuteiros que já conheceste (que vais conhecer?). Fica o Benfica quando ganha (e quando perde). Fica tudo na memória. Fica, principalmente, o orgulho que tenho em ti, por tudo o que fazes. Por tudo o que és. Por o que me fazes ser. Espero que fique um dia as viagens de barco pelo estreito de Gibraltar. E que fiquem também as mil aventuras que temos para viver juntos. Talvez não pareça um amor assim tão incomum. Tão 'fora-do-normal'. Tão daquele que vem nos livros e aparece nos livros. Mas é o nosso amor. E isso é o que mais importa.
Obrigado por este tempo. Ficaram a faltar as palavras e tantas outras coisas que não aparecem aqui mas, ter-te mesmo ao lado, faz-me esquecer o resto.
1 Passos:
Fico tão contente que tenhas orgulho em mim. Acho muito importante deixar as pessoas orgulhosas, mais do que pelo que fazemos, pelo que somos.
E o que sou hoje, sou-o também graças a ti. Pela felicidade que me dás, pelo sorriso que me metes nos lábios a cada dia, por tirares espaço ao meu lado preguiçoso, ainda que ele teime em aparecer.
1 ano traz muitas histórias dentro, mas vamos viver muitas mais, e um dia todas elas farão parte do livro da nossa vida!
Obrigado por tornares a minha vida tão mais saborosa
Com amor, R.
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