Em casa de estudantes, há sempre saudades da outra casa. Em casa de estudantes há sempre pensamentos no vazio que preenchem as paredes sem lhes tocarem. À M. Francesa, J. Alemã e L. Francesa de Paris, junta-se a I., a Portuguesa. Portuguesa de Lisboa ainda que os Mouros lhe tenham assaltado o corpo. A última das quatro habitantes do Mount Street 59 merece também que algo lhe seja escrito. A I. é tipicamente portuguesa, com a alma inundada de saudosismo. Tem as orelhas furadas como os Punks que uma vez vi em Paris de cabelo verde e espetado, quando em criança sentada no autocarro (se bem que agora não tenho toda a certeza de lhes ter visto as orelhas furadas). Ainda que o tempo lhe tenha passado a excentricidade mantém-se. O seu cabelo já abandonou a cor natural e os seus lindos olhos claros encontram a arte espalhadas em todos os cantos. A Portuguesa, também assim chamada a canção que se transformou no Hino do seu país, tem uma farda guardada no armário e um lenço que não é usado há demasiado tempo. Nesse país de língua inglesa são chamados Scouts. Ela gosta de música e de fotografia e insiste em escrever num pequeno (grande) espaço só seu algures na internet. A Portuguesa tem raízes Pessoanas e não é grande fã de épocas festivas. Já muitas vezes a vi reclamar do espírito (pouco) natalício que se envolve a Terra no mês de Dezembro. Ainda que a ache completamente despreocupada com os vãos pensamentos dos outros, ficou entristecida quando lhe comentaram a diferente aparência física. Para mim continua na mesma, ainda que não a tenha sob o meu olhar discreto há bastante tempo. Apologista de saias e vestidos com bolsos não consegue esconder o gosto pela Moda que aparece em cada ruela britânica. A I. deu-me uma pulseira há coisa de 3 anos e pouco, feita em fimo que tenho religiosamente guardada por já me estar demasiado larga e prestes a cair-me do pulso. Quando a conheci tinha uns modernos óculos de sol com um padrão leopardo (que nunca esquecerei) que lhe assentavam na fase rosada e no sorriso maroto. Foi nessa altura que me ficou com um lagarto já meio comido pelo cão, mas que me fora entregue por uma menina pequena chamada Marisa que nunca mais vi. A Portuguesa tem amigos espalhados por todo o lado, por qualquer lado, e adora concertos. Às vezes acho que no meio de tanto ser social prefere o seu copo de vinho no recanto do quarto a pensar como estará agora o clima ibérico. Como estarão os artistas em Lisboa e as praias no Algarve. A I. é uma boa rapariga, acredito que sim. Ainda que tenhamos chocado. Talvez por sermos demasiado parecidas (?). Ainda que pouco referenciado, a Portuguesa gosta de malabarismo e de casacos originais. Confesso eu não ser capaz de os usar, muito provavelmente. Mas isso também é devido à minha falta de coragem de arriscar e paciência para experimentar. Não vejo a I. há pelo menos um ano e não me lembro de a ter visto fora do Mundo escutista (ou as fotografias contam?). Apetecia-me voltar a Inglaterra e visitar a minha amiga I.. E conhecer o norte do país que ela conheceu. E entrar em fotografias com ela. E depois levá-la a Birmingham para ela conhecer a D.. Não a princesa, mas a minha outra amiga que estuda nesses ares ingleses. Talvez este desejo de conhecer o Mundo se deva aos nossos antepassados descobridores que cruzavam oceanos e encontravam continentes. Talvez sejamos nós a actual descendência daqueles que um dia navegaram nas Naus catrinetas por mares nunca antes navegados. A I. é das letras e das linhas, de escrever e de coser. E é dos poetas e das ruas silenciosas. A outra (para não falar na primeira pessoa) é das ciências. Das matemáticas exactas em que ela não acredita e dos variados artigos escritos em toda a parte, espalhados em todas as mesas que ocupa. Ela é pelas Vans. A outra nunca teve umas. Ela é das grandes cidades em que se corre pelo metro (underground, não é?!). A outra ainda que nas redondezas da capital Algarvia vive rodeada da Natureza com a vista de um terceiro andar. Ela tem os olhos verdes. A outra, castanhos. E ainda assim, com tantas diferenças, parecem ser tão iguais.
1 Passos:
Este, ficará comigo para sempre, bem guardadinho, como o lagarto que desde há 3 anos, nunca mais me saiu do meu cinto a ganhar agora pó no armário português. Dizem que as melhores coisas são as que nos apanham de surpresa e eu não posso esconder os olhos humedecidos, assim como a falta de palavras que me invade. Isto, não significa apenas que és assídua no que escrevo; significa que fazes parte de mim. Quantos, posso eu dizer com verdade que me sabem assim? Poucos. Pois eu falo com tanta gente, mas converso com tão pouca... E tu, ainda depois do choque (por sermos demasiado parecidas?), vincas-te com amor no meu dia-a-dia, e isso é amor. E é um sorriso nos lábios e um nó no coração, aquele de forma quadrada, que na Família lhe chamam "da amizade". E eu sabia, que o nosso, apesar dos violentos enlevos, nunca tinha quebrado, e não quebrou, confirmo-o agora. Gosto muito de ti Panda.
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